Há sete meses, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, possui um relatório da Polícia Federal que apresenta sérias suspeitas sobre a relação do ministro Dias Toffoli com o banqueiro Daniel Vorcaro. O documento, ao qual a piauí teve acesso, levanta a hipótese de que Toffoli seja “o beneficiário final” ou o “proprietário de fato” do fundo de investimento Arleen, que recebeu R$ 35 milhões de Vorcaro. Esses recursos foram levados a um paraíso fiscal nas Ilhas Virgens Britânicas por meio de uma transação com a holding Egide I.
O fundo Arleen era sócio do Tayayá, um resort pertencente a Toffoli e sua família em Ribeirão Claro, no Paraná. De acordo com o relatório da PF, o Arleen, inicialmente controlado por Vorcaro, mudou de proprietário para um empresário próximo a Toffoli e, posteriormente, fez uma alteração em seu regulamento para possibilitar investimentos no exterior, acabando por transferir seus ativos para o Egide I.
O documento da Polícia Federal menciona que várias evidências indicam que o ministro Dias Toffoli poderia ter atuado como beneficiário do fundo Arleen e seus ativos. Além disso, o relatório sugere a utilização de intermediários e estruturas no exterior em transações que envolveram a Egide I nas Ilhas Virgens Britânicas.
Consultado sobre a existência de recursos no exterior, o gabinete do ministro Toffoli afirmou que “jamais manteve ou teve direta ou indiretamente recursos no exterior” e que nunca realizou operações nas Ilhas Virgens Britânicas. A movimentação dos recursos, conforme relatado pela PF, ocorreu ao longo de 2025, quando o empresário Alberto Leite, amigo de Toffoli, adquiriu o fundo Arleen e posteriormente alterou seu regulamento para permitir investimentos internacionais.
Outra questão levantada pelo relatório envolve a possível influência de Vorcaro em um voto de Toffoli sobre uma causa relacionada a precatórios do setor sucroalcooleiro. A destilaria Alcídia, pertencente ao grupo Atvos, pleiteava reparações da União por prejuízos da década de 1980. Uma decisão favorável à Alcídia beneficiaria o Banco Master, que tinha uma significativa carteira de precatórios. O comportamento de Toffoli, que tradicionalmente favorecia as usinas, mudou drasticamente antes do julgamento, causando grande surpresa entre os envolvidos.
Nas trocas de mensagens de representantes do Banco Master, há a menção de que o voto de Toffoli teria “virado”, o que levou ao alvoroço no banco. Um dos diretores jurídicos chegou a sugerir atrasar o julgamento. O caso foi adiado e, quando finalmente julgado, Toffoli voltou a votar como habitualmente fazia, em favor da usina Alcídia.
O relatório, intitulado Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 893171/2026, foi construído a partir do conteúdo do celular de Vorcaro, apreendido em sua prisão em novembro de 2025. Nele, a PF documenta contatos frequentes entre Vorcaro e Toffoli, mencionando também a necessidade de providências retidas devido à proibição de investigar ministros do STF sem autorização do tribunal. Os agentes federais não puderam aprofundar em algumas das suspeitas, como a transferência dos R$ 35 milhões para fora do país.
O gabinete de Toffoli respondeu afirmando que um relatório similar foi arquivado e que os ministros do STF não viam razão para considerar suspeições em seu favor. No entanto, a PF aponta que as investigações poderiam ter avançado mais, especialmente sobre possíveis irregularidades envolvendo o Arleen e as transações que ocorreram nas Ilhas Virgens Britânicas.
Por fim, o documento da PF revela que Vorcaro demonstrou preocupação constante com os pagamentos ao fundo Arleen, tratando-os como compromissos inadiáveis. Trocas de mensagens mostram a urgência do banqueiro em regularizar pendências financeiras associadas ao Tayayá, ressaltando o vínculo entre ele e o resort do ministro.
A relação entre Vorcaro e a ex-esposa de Toffoli, Roberta Rangel, também é investigada, indicando vínculos profissionais que datam de quando atuavam junto ao Banco Master, o que adiciona outra camada às suspeitas.
A situação continua sendo monitorada, e o relatório, que comprova a complexidade dos laços de Toffoli com o banqueiro, permanece em análise, sem que eventuais desdobramentos sejam esclarecidos.
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