
Um levantamento realizado pela Arpen-SP (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo) indica uma significativa queda nos registros civis nos cartórios da região central da capital paulista ao longo das últimas duas décadas.
O cartório do Bom Retiro, por exemplo, registrou apenas 300 atos — que incluem nascimentos, casamentos e óbitos — durante todo o ano passado. Em comparação, o cartório do Pari contabilizou 357 atos, o Brás 493 e o da Santa Ifigênia 579. Por outro lado, o cartório da Capela do Socorro, situado na zona sul, registrou mais de 15 mil atos no mesmo período.
A pesquisa abrangeu 58 cartórios de registro civil das pessoas naturais em São Paulo, analisando dados de 2000 a 2025. Leonardo Munari de Lima, presidente da Arpen-SP, sugere que a diminuição da população residente na área pode ser um fator explicativo para esses números. “Os cartórios atuam com territorialidade, ou seja, quem nasce naquela região deve ser registrado ali, assim como as pessoas que morrem na região precisam ter seus óbitos registrados localmente”, afirma.
Queda nos Nascimentos Registra Aumento
A Arpen-SP também observa uma diminuição acentuada nos registros de nascimentos em bairros centrais nos últimos 26 anos. Santa Cecília, por exemplo, registrou 292 nascimentos em 2025, um decréscimo de 75% em relação ao ano de 2000. Consolação e Brás apresentaram perdas de 65% e 63%, respectivamente.
Dados da Fundação Seade, uma agência de estatísticas do Governo do Estado de São Paulo, revelam que quase 50% dos distritos da capital — 46 de 96 — enfrentaram perdas populacionais entre 2010 e 2022, com maior incidência nos bairros centrais, norte e leste. A divulgação desses dados ocorreu em abril de 2024, com base no Censo Demográfico de 2022 realizado pelo IBGE.
Causas das Quedas nos Registros
Uma visita da Folha a cartórios da área central revelou que o baixo movimento é uma característica comum. Um funcionário, que preferiu não se identificar, atribuiu a escassez de registros ao caráter comercial da região, onde a presença de residentes é limitada e a falta de hospitais próximos reduz as possibilidades de registros.
Um segundo cartório, que se concentra em registros civis de brasileiros no exterior, apresentou um fluxo maior, mas revelou baixas taxas de registros para residentes locais. Segundo a Arpen-SP, os cartórios centrais com mais nascimentos e óbitos são os localizados próximos a instituições hospitalares, como o Cartório da Bela Vista, que registrou 9.449 nascimentos em 2025, correspondendo a 7,7% de todos os nascimentos da capital naquele ano.
Impacto da Digitalização nos Serviços
Embora o advento de serviços online, como o e-Notariado, tenha tornado o trabalho mais eficiente em alguns cartórios, Lima destaca que os registros civis ainda requerem atendimento presencial. “Atos de nascimento, casamento e óbito não podem ser realizados digitalmente e, portanto, ainda precisam ser feitos de forma presencial”, conclui.
Essas constatações levantadas pela Arpen-SP refletem uma tendência preocupante para os cartórios da região central de São Paulo, evidenciando a necessidade de políticas que incentivem o registro civil e novamente aproximem os cidadãos de seus direitos fundamentais.
As informações foram originalmente publicadas pela Folha de S.Paulo. Data da publicação: 22 de abril de 2026.











