
Um relatório elaborado por um comitê da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos alega que a China estabeleceu uma extensa rede de infraestrutura espacial na América Latina. O objetivo, segundo o documento, seria a vigilância de adversários e o fortalecimento de capacidades militares futuras. A investigação cita dois dos casos examinados em território brasileiro, além de menções a instalações na Argentina, Venezuela, Bolívia e Chile.
Procurados pela CNN, os representantes envolvidos contestaram as alegações feitas pelos EUA.
China e a Vigilância Espacial na América Latina
O relatório intitulado “Atraindo a América Latina para a órbita da China” foi apresentado pelo Comitê Seleto sobre Competição Estratégica entre os EUA e o Partido Comunista da China. Segundo informações do comitê, composto por 23 deputados dos partidos Republicano e Democrata, as operações espaciais da China suscitam preocupações significativas. O presidente do comitê, o deputado republicano John Moolenaar, enfatizou a importância das operações espaciais dos EUA e alertou sobre a intenção da China de diminuir essa presença no espaço.
Segundo o relatório, Pequim teria desenvolvido uma “extensa rede de estações terrestres espaciais e telescópios” de uso civil e militar na América Latina. O objetivo seria coletar informações sobre adversários e potencializar as capacidades do Exército de Libertação Popular (PLA), a principal força militar da China.
Instalações Espaciais na América Latina
Com base em informações abertas, o comitê identificou “ao menos onze instalações espaciais” associadas à China na região. Essas instalações não são descritas apenas como projetos científicos isolados, mas como uma rede integrada que fortalece a capacidade da China de monitorar e possivelmente interferir em operações espaciais e militares de outros países.
O relatório destaca a presença de estações terrestres, radiotelescópios e Estações de Rastreamento a Laser de Satélites (SLR), fundamentais para a ampliação do sistema de sensoriamento remoto terrestre da China.
Estação Terrestre Tucano no Brasil
Um dos casos mencionados é a "Estação Terrestre Tucano", cuja localização é considerada desconhecida. O comitê alega que esta instalação é uma joint venture entre a startup brasileira Ayla Nanosatellites e a Beijing Tianlian Space Technology. O documento destaca um memorando que garantiria a troca de dados operacionais e a potencial colaboração militar. A Força Aérea Brasileira (FAB) estaria também envolvida, participando de treinamentos e compartilhamento de infraestrutura.
Por sua parte, a FAB confirmou ter um Memorando de Entendimento com a empresa Alya, mas enfatizou que não houve acordos de cooperação efetivos desde o término da vigência do memorando.
A fundadora da Alya Space, Aila Raquel, negou que a estação seja uma joint venture e afirmou que a empresa manterá controle exclusivo da Estação Terrestre Tucano, que aguarda licenciamento da Anatel antes do início de suas operações.
Laboratório Conjunto na Paraíba
O relatório também menciona o Laboratório Conjunto China-Brasil para Radioastronomia e Tecnologia, estabelecido na Serra do Urubu, na Paraíba. Este laboratório surgiu de um acordo entre a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) com uma instituição chinesa. A proposta é desenvolver tecnologia para observação espacial, mas destaca-se a preocupação com a conexão da instituição chinesa à indústria de defesa.
Procurada pela CNN, a UFPB explicou que a cooperação científica internacional com a China ainda está em fase inicial e que não há projetos em execução.
Recomendações do Comitê
No encerramento do relatório, o comitê dos EUA recomendou uma revisão da cooperação da NASA com países que hospedam infraestrutura ligada à China. A proposta é avaliar a colaboração com foco na segurança dos sistemas e dados dos EUA. O comitê sugeriu que o governo americano busque uma meta explícita de interromper a expansão da infraestrutura espacial da China na América Latina.
A CNN tentou contatar o Itamaraty e o Ministério da Defesa, aguardando resposta.
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