
O número de candidaturas de pessoas ligadas à segurança pública no Rio Grande do Sul registrou um declínio significativo em 2026, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O levantamento aponta uma redução de 45,3% nas candidaturas na área, que caiu de 64 para 35 em relação a 2022. Essa diminuição ocorre após um período de crescimento que se iniciou em 2018, quando o volume de profissionais vinculados à segurança aumentou de 50 para 64, representando uma alta de 28%.
O estudo considera diversas ocupações, incluindo policiais militares, policiais civis, militares reformados, membros das Forças Armadas, bombeiros militares e vigilantes. Apesar da redução no número absoluto de candidaturas, a proporção desses candidatos em relação ao total também diminuiu: em 2022, representavam 4,47% das candidaturas, enquanto em 2026 este índice despencou para 3,34%. A redução foi puxada fundamentalmente por militares reformados e policiais militares, ao passo que bombeiros e vigilantes observaram um incremento no número de suas candidaturas. O partido com a maior quantidade de candidatos nessa categoria foi o Republicanos.
É importante notar que esses dados são baseados em ocupações autodeclaradas, o que significa que candidatos que atuam na segurança, mas que se identificam por outra profissão, podem não estar incluídos no levantamento.
Fragmentação da direita e desinteresse
José Carlos Martines Belieiro Junior, cientista político e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), atribui a queda das candidaturas ligadas à segurança pública a mudanças no cenário político. Segundo ele, as candidaturas nesse campo costumam estar associadas à direita, fortalecidas durante a ascensão do bolsonarismo. Este fenômeno foi impulsionado por um discurso que defendia o endurecimento das políticas de segurança e a ampliação do poder das forças de Estado.
Com a ausência de Jair Bolsonaro na corrida presidencial e a fragmentação da direita em diferentes candidaturas em 2026, esse contexto se alterou significativamente.
Cenário nacional
A diminuição observada no estado também é refletida em dados nacionais, onde as candidaturas ligadas à segurança pública apresentaram uma queda de 34,9% em comparação a 2022, superando a redução geral de candidaturas no Brasil, estimada em 29,9%. Em números absolutos, as candidaturas na área de segurança diminuíram de 1.611 em 2022 para 1.049 em 2026.
Rodrigo Perla Martins, historiador e mestre em Ciência Política, relaciona essa queda a eventos que se sucederam após a derrota de Bolsonaro, como os acampamentos em quartéis e os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, que enfraqueceram a imagem das Forças Armadas. Apesar da redução, os especialistas afirmam que a questão da segurança pública continua a ser uma pauta relevante nas eleições.
Além das transformações no cenário político, há também iniciativas legislativas visando limitar a atuação de militares da ativa na política. Um exemplo é a proposta de emenda à Constituição (PEC 42/2023), que prevê a transferência para a reserva de integrantes das Forças Armadas que decidirem concorrer a cargos eletivos, embora essa medida não se aplique a policiais militares e bombeiros estaduais.
Mudanças nas prioridades eleitorais
Paralelamente à diminuição das candidaturas vinculadas à segurança, outros setores, como educação e saúde, vêm crescendo. O número de candidatos na área de educação, por exemplo, subiu de 52 para 57, enquanto na saúde, embora tenha ocorrido uma leve queda em números absolutos, a proporção aumentou de 4,5% para 5,9%. A categoria de enfermeiros viu um crescimento de candidatos, passando de 6 para 15.
Rodrigo Perla Martins sugere que essas mudanças refletem novas preocupações do eleitorado, como a alta do custo de vida e a demanda por melhorias na saúde pública, especialmente em relação ao SUS.
Profissões mais comuns entre os candidatos
No que diz respeito às ocupações mais declaradas entre os candidatos no Rio Grande do Sul, destacam-se empresários, advogados e vereadores, mas houve mudanças nos rankings. As profissões de servidores públicos estaduais e jornalistas, por exemplo, não figuram mais na lista, enquanto comerciantes e professores de Ensino Médio emergiram como novos nomes.
Em 2022, as dez profissões mais comuns eram:
- Empresário — 161
- Advogado — 128
- Vereador — 104
- Aposentado (exceto servidor público) — 52
- Deputado — 52
- Administrador — 50
- Servidor público municipal — 49
- Servidor público estadual — 41
- Jornalista e redator — 28
- Policial militar — 25
Em 2026, a lista conta com:
- Empresário — 108
- Advogado — 97
- Vereador — 88
- Deputado — 48
- Aposentado (exceto servidor público) — 33
- Servidor público municipal — 25
- Administrador — 24
- Comerciante — 22
- Estudante, bolsista, estagiário e assemelhados — 22
- Professor de Ensino Médio — 21
Essas transformações na composição dos candidatos podem sinalizar uma adaptação aos novos anseios da sociedade, dentro de um cenário eleitoral em contínua evolução.











