Brasil ignora Corredor Andes-Atlântico e teme perder investimentos estratégicos da Argentina

O Brasil não faz parte de uma nova iniciativa estratégica dos Estados Unidos na América do Sul, que visa movimentar bilhões de dólares em setores como infraestrutura, energia, mineração e tecnologia. A parceria, anunciada entre EUA e Argentina, é denominada Corredor Andes-Atlântico e busca conectar as principais áreas produtoras de minerais e energia da Argentina aos portos do Atlântico e mercados internacionais.
A ausência do Brasil neste corredor, no entanto, não significa que o país não sentirá os efeitos dessa colaboração. A iniciativa coloca a Argentina em uma posição privilegiada para atrair investimentos e financiamentos americanos em setores que o Brasil também busca expandir, como mineração, petróleo, gás, tecnologia e logística.
Investimentos e impactos diretos
O novo projeto possui dois eixos principais que estão interligados à economia brasileira: o gás de Vaca Muerta e a Hidrovia Paraguai–Paraná. Assim, é possível que o Brasil enfrente dois tipos de impacto: como concorrente atraindo investidores internacionais e como beneficiário da melhora na infraestrutura energética e logística argentina.
O Corredor Andes-Atlântico é o primeiro a ser estabelecido no Hemisfério Ocidental por meio da Partnership for Global Infrastructure and Investment (PGII), uma estratégia dos EUA para modernizar ferrovias, gasodutos, portos e redes elétricas. De um lado, estão localizadas reservas significativas de lítio e cobre; do outro, a formação de Vaca Muerta, que transformou a Argentina em um ator importante no cenário energético sul-americano.
Segundo o governo dos EUA, a nova infraestrutura deve desbloquear bilhões em investimentos e proporcionar oportunidades para empresas americanas. O Export-Import Bank (EXIM) dos Estados Unidos anunciou uma cooperação que inclui até US$ 7 bilhões em financiamento para projetos de infraestrutura na Argentina até 2027, além de uma indicativa de financiamento de até US$ 6 bilhões para o projeto de gás natural liquefeito de Vaca Muerta.
Concorrência e integração
O desenvolvimento da Argentina no setor de minerais críticos é um assunto de atenção para o Brasil, que recentemente sancionou uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Essa iniciativa brasileira busca fomentar a pesquisa e a industrialização, oferecendo incentivos fiscais e apoio financeiro.
Ambos os países competem por investimentos nas áreas de mineração e tecnologia. Enquanto a Argentina avança com o suporte americano, o Brasil procura fortalecer suas políticas internas para melhorar suas reservas minerais. O cenário é complexo, dado que os setores escolhidos pelo corredor de infraestrutura estão diretamente ligados à crescente demanda global por matéria-prima essencial.
Interesses mútuos
O aumento na capacidade de produção na Argentina pode oferecer ao Brasil um mercado cauteloso, especialmente no que diz respeito à importação de gás natural de Vaca Muerta. Com planos para expandir as exportações de gás argentino ao Brasil, a oferta energética pode ser ampliada, beneficiando setores como agricultura e petroquímica. As primeiras importações de gás já começaram, e representantes de ambos os países estão trabalhando em restrições logísticas e contratuais.
Outro fator a ser considerado é a Hidrovia Paraguai–Paraná, que não beneficia apenas a Argentina, mas também é vital para o transporte de produtos do território brasileiro. O aumento da movimentação de cargas nessa rota pode trazer consequências econômicas relevantes, alterando custos e fluxos comerciais.
Uma nova dinâmica regional
A disputa por recursos minerais críticos, como lítio e cobre, tem atingido um novo patamar de importância na região. Com grandes potências buscando desviar suas cadeias produtivas de países centralizados, a América do Sul se apresenta como um lugar estratégico. A Argentina tem atraído atenção pela sua abundância em lítio, enquanto o Brasil coloca em prática sua própria estratégia de maximizar a produção mineral.
Embora a escolha dos EUA pela Argentina para o desenvolvimento do Corredor Andes-Atlântico não signifique um abandono do Brasil, a implementação dessa iniciativa pode transformar o equilíbrio econômico e geopolítico da América do Sul. O Brasil, embora fora do projeto, precisará monitorar os impactos da colaboração americana e argentina, que sem dúvida moldarão o cenário regional nos próximos anos.











