À espera de uma solução legislativa que possa perdoar dívidas, os produtores rurais estão testando a paciência dos bancos, que são essenciais para o financiamento de suas safras. Após um período de três anos difíceis, as instituições financeiras têm endurecido suas críticas e, ao invés de manter uma abordagem amigável, começaram a expor abertamente os problemas nas relações com os agricultores.
Esse tom mais contundente foi evidenciado durante um painel sobre os impactos da recuperação judicial do agronegócio, realizado no congresso da Andav (Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários). As discussões abordaram desde o acesso aos produtores em situação de inadimplência até as fragilidades na governança que ainda afetavam muitos agricultores.
Pedro Fernandes, diretor de agronegócio do Itaú BBA, exemplificou essa situação ao questionar como um restaurante que fatura menos de R$ 500 mil mensalmente consegue gerenciar sua contabilidade, enquanto um agricultor que movimenta R$ 40 milhões anualmente ainda entrega notas de forma desorganizada. Fernandes criticou a ideia de um “perdão de dívidas,” defendida por algumas entidades do setor, afirmando que essa noção cria uma falsa expectativa de que a crise pode ser resolvida de maneira simples, levando ao aumento da inadimplência.
Ele destacou que a solução não reside em milagres, mas sim em criar um ambiente de negócios sustentável. Dados da Serasa, apresentados durante o painel, revelaram que a dívida média da população rural inadimplente cresceu significativamente, passando de R$ 40 mil no primeiro trimestre de 2023 para mais de R$ 120 mil no mesmo período deste ano.
Fernandes também enfatizou a importância de um relacionamento saudável entre os produtores e as instituições financeiras para garantir o financiamento do agronegócio. Ele mencionou que, até 2026, os recursos controlados do Plano Safra devem alcançar R$ 150 bilhões, com mais R$ 140 bilhões disponíveis em recursos livres, além de um estoque de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CPRs) totalizando R$ 515 bilhões.
O executivo questionou a eficácia de mexer apenas em uma parte do financiamento, destacando que a insatisfação com subsídios não resolve os problemas mais amplos enfrentados pelo setor. João Andrade, superintendente de agronegócios do Santander, acrescentou que o contato com devedores tornou-se extremamente complicado, destacando que às vezes são necessárias até cinquenta tentativas para falar com um produtor, especialmente se este se encontra em recuperação judicial.
Fernandes concordou com esse ponto, afirmando que cerca de 20% dos problemas de inadimplência do Itaú estão relacionados à recuperação judicial, enquanto o restante envolve atrasos de contato com os produtores. Além das dificuldades de comunicação, os representantes dos bancos mencionaram um amadorismo nas gestões dos agricultores. Andrade compartilhou uma experiência em que um produtor não relatou corretamente os custos de arrendamento, evidenciando a necessidade de informação precisa e detalhada para a boa gestão financeira.
As discussões deixaram claro que, para os bancos e os produtores, a melhoria do ambiente de negócios é fundamental para se alcançar um equilíbrio e garantir que os recursos financeiros fluam de maneira eficaz, promovendo a sustentabilidade do agronegócio brasileiro.
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