
Na última semana, a Academia Brasileira de Neurologia emitiu um alerta à população sobre a polilaminina, enfatizando a necessidade de cautela, pois ainda não há evidências concretas sobre a eficácia do produto. Segundo informações publicadas pela Folha de S. Paulo, especialistas apontam diversos problemas metodológicos na pesquisa liderada por Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ. Nas redes sociais, críticos acusaram outros de "torcer contra" o tratamento, polarizando o debate público.
A polilaminina, uma substância química, tornou-se o foco de discussão acalorada, agravada pela forma como a imprensa abordou a pesquisa. Desde setembro do ano passado, muitos veículos têm noticiado o artigo preliminar que, até o momento, não foi publicado em revistas científicas após a revisão por pares, utilizando uma linguagem que atribui propriedades curativas à substância. Além disso, a narrativa frequentemente apresenta a pesquisadora como uma heroína.
Embora a pesquisa tenha potencial e aspectos hipotéticos importantes no tratamento da paraplegia, muitos textos falharam em destacar a natureza preliminar dos achados, afirmando erroneamente que a polilaminina poderia devolver movimentos. A falta de informações sobre o status do artigo como pré-print e as explicações limitadas sobre as fases de pesquisa de medicamentos tornaram a cobertura ainda mais problemática.
Poucos jornalistas se dedicaram a revisar o relatório do estudo, que apresenta diversos sinais de alerta. Por exemplo, dos oito participantes do estudo, quatro foram tratados em um prazo inferior a um dia após o trauma, e todos se submeteram a cirurgias e descompressões. Nessa fase inicial, é difícil confirmar que a perda de movimentos é definitiva, visto que cerca de 80% dos pacientes com tratamento padrão nessa condição apresentam melhorias motoras. Assim, não seria preciso afirmar que a polilaminina reverte sequelas de lesão medular.
Quando se comunica a produção científica ao público leigo, é essencial que o jornalismo não se concentre apenas em exaltar figuras científicas ou simplificar indevidamente as pesquisas. No caso da polilaminina, no entanto, essa abordagem parece ter prevalecido, resultando em uma cobertura que confunde mais do que esclarece.












