Eva, 36 anos, lutava diariamente contra o controle opressivo do marido ciumento, que limitava suas ações no território indígena de Tenondé Porã, localizado em Parelheiros, no extremo-sul de São Paulo. Sem opções, decidiu buscar abrigo na casa de Jerá Guarani, liderança da aldeia Kalipety. Essa prática, que há uma década era impensável, demonstra a resistência e transformação social que emergem na comunidade.
Jerá lembra que, no passado, mulheres como Eva frequentemente enfrentavam a violência em silêncio. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, as mulheres eram frequentemente ignoradas ao relatarem abusos. Essa mudança não ocorreu da noite para o dia; foi necessário um longo processo de luta para dar voz e respeito às mulheres guarani, incluindo propostas inovadoras como a exibição de uma escultura de vulva na casa de reza.
Desde sua infância, Jerá testemunhou a degradação de seu território, transformado em um espaço de pobreza, alcoolismo e violência. O machismo e a hierarquia patriarcal estavam enraizados, dificultando a vida das mulheres. "Era comum ver mulheres com marcas visíveis de abuso, e a resposta era sempre silenciar o problema", relembra Jerá. O controle opressivo se estendia não apenas na vida das mulheres, mas também no modo como elas eram tratadas nas estruturas de poder.
O primeiro passo para a transformação foi a luta pela demarcação de território, que se intensificou quando as mulheres perceberam a necessidade urgente de espaço e proteção. Jerá e outras líderes criaram um Conselho Guarani, originalmente visto como uma oportunidade para os homens mas que, ao longo do tempo, se tornou um espaço para as mulheres também. Desde 2014, com a saída do último cacique, o conselho passou a incluir majoritariamente mulheres, possibilitando um ambiente de diálogo e conscientização sobre a saúde indígena e direitos.
A partir de 2021, as lideranças femininas começaram a organizar encontros para discutir a violência doméstica, trazendo à tona a realidade devastadora que muitas enfrentavam. A encenação de uma intervenção no contexto da violência chamou a atenção de homens da comunidade, resultando em momentos de reflexão e arrependimento sobre suas ações.
A recente parceria com a Delegacia de Defesa da Mulher significou um avanço importante, permitindo que mulheres como Jaqueline Kambiwá, representante da Anmiga, trouxessem à tona as especificidades da violência enfrentada pelas mulheres indígenas. A implementação de unidades móveis da delegacia nos territórios mostrou-se uma estratégia relevante, mesmo que as estatísticas ainda deixem a desejar: apenas 10 a 12 registros por ano.
Hoje, as mulheres guarani têm mais ferramentas para afrontar a violência. Há um clima de esperança entre as líderes, que agora buscam assegurar que previnam abusos e garantam que os responsáveis sejam responsabilizados, mesmo que se trate de figuras respeitáveis como pajés. Com novas políticas de proteção e conscientização em andamento, o caminho para uma verdadeira transformação social continua, reafirmando a importância do protagonismo feminino em comunidades indígenas.
A luta por direitos, autonomia e segurança é, sem dúvida, uma batalha contínua, mas com cada passo dado, o futuro parece mais promissor para as mulheres de Tenondé Porã.
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