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Eleições em Israel: Netanyahu e oposição buscam maioria em cenário dividido

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, lidera a apuração das eleições parlamentares ocorridas no dia 27 de outubro. No entanto, seu bloco de direita e partidos religiosos alcançou apenas 53 das 120 cadeiras do Parlamento israelense, de acordo com os dados contabilizados até a manhã de 28 de outubro, representando uma falha em obter a maioria necessária para formar um novo governo. A oposição, liderada pelo ex-general Gadi Eisenkot, somou até o momento 48 cadeiras, enquanto partidos de representação palestina podem conquistar a histórica marca de 19 assentos, um número inédito.

A Comissão Eleitoral Central israelense projeta que Netanyahu está oito cadeiras abaixo da maioria requerida de 61 para governar. Este cenário também dificulta a formação de uma maioria por parte da oposição sem a necessidade de negociar com outros grupos políticos. A definição de quem assumirá a próxima Primeira-Ministra, portanto, dependerá de acordos após a conclusão da contagem de votos.

A grande novidade desta eleição é o desempenho das listas árabes, que representam principalmente os cidadãos palestinos de Israel. A Lista Conjunta, composta por Hadash, Ta’al e Balad, está projetada para garantir 12 cadeiras, enquanto o partido Ra’am, de orientação islâmica conservadora, almeja mais sete.

Caso se confirme, essa soma de 19 cadeiras significará um aumento de 90% em relação às dez conquistadas nas eleições de 2022 e superará o recorde de 15 ocupaçöes parlamentares alcançado em 2020.

A participação eleitoral foi de 77,7%, a mais alta dos últimos 20 anos. A forte mobilização dos cidadãos palestinos de Israel é citada pela imprensa local como um dos principais fatores por trás do desempenho das listas árabes nesta eleição.

A apuração ainda não foi concluída, restando votos especiais, como os de militares, reservistas e profissionais de saúde, além daqueles de eleitores que votaram fora de seus locais habituais. A expectativa é que a contagem se finalize nos próximos dias, com resultados oficiais a serem divulgados até 4 de novembro.

Reivindicações pelos dois lados

Apesar de não resultar em maioria parlamentar, Netanyahu destacou a força do Likud, que continua sendo o maior partido individual do país. Em pronunciamento após o fechamento das urnas, o primeiro-ministro expressou sua intenção de formar um governo nacionalista à direita, refutando a possibilidade de coalizão com partidos árabes.

Netanyahu também ressaltou as operações militares realizadas desde outubro de 2023 e mencionou a possibilidade de colaboração com os Estados Unidos em ações contra o Irã.

Nesta mesma quarta-feira, o Likud acusou partidos árabes de suposta fraude na eleição e exigiu uma investigação policial sobre alegações de compra de votos e intimidações. A Comissão Eleitoral Central informou que analisará as denúncias, embora um de seus representantes já tenha contestado a alegação de fraude em larga escala, sem que provas concretas tenham sido apresentadas.

Eisenkot, principal rival de Netanyahu, declarou que os cidadãos israelenses escolheram a mudança e pediu a saída de Netanyahu da política. O ex-general prometeu trabalhar pela formação de um governo sionista e alertou Netanyahu contra o uso das Forças Armadas para interesses políticos.

Eisenkot comandou as Forças Armadas de Israel entre 2015 e 2019, durante um governo de Netanyahu, que havia aprovado sua nomeação. Ele também fez parte do gabinete de guerra criado após outubro de 2023, deixando o cargo em junho de 2024 devido a desavenças sobre a condução da ofensiva contra a Gaza.

Apesar da rivalidade entre eles, ambos se opõem à criação de um Estado palestino independente e defendem o controle israelense sobre os territórios ocupados. Embora Eisenkot e Netanyahu tenham diferenças sobre a expansão dos assentamentos na Cisjordânia, ambos endossam o crescimento das colônias conforme a legislação israelense.

Impacto da representação palestina

O aumento das listas árabes coloca seus representantes em uma posição estratégica nas futuras negociações para a formação do governo. Com as 48 cadeiras da oposição liderada por Eisenkot, somadas às 19 dos partidos árabes, é possível criar uma coalizão que supere a maioria de 61 deputados.

No entanto, as principais legendas sionistas da oposição enfrentam resistência quanto a possíveis coligações com as forças de representação palestina, tendo rejeitado isso durante as campanhas. Yousef Jabareen, presidente da Lista Conjunta, indicou que aqueles que desejam remover Netanyahu do poder precisarão dialogar com os árabes. Essa bancada, que integra nacionalistas palestinos e esquerda judaica, defende a igualdade de direitos e o fim da ocupação.

Enquanto isso, Yair Golan, presidente dos Democratas, um partido de centro-esquerda que projeta oito cadeiras, defendeu que a oposição deva negociar com a Lista Conjunta e o Ra’am, buscando possibilidades para formar um governo alternativo.

Em comentários à imprensa, a jornalista especializada em política internacional Flávia Giannini, analisou que a mobilização dos cidadãos palestinos de Israel poderá alterar a composição do Parlamento, mas isso não assegura que suas demandas sejam atendidas pelo futuro governo.

Giannini frisou que a participação política dos árabes já enfrentou barreiras antes da eleição, como a tentativa da Comissão Eleitoral Central de banir a Lista Conjunta e o Ra’am, uma decisão que foi revertida pela Suprema Corte em outubro.

Manifestantes exigem o fim do governo israelense e o término da guerra em Gaza, em Jerusalém, um dia após as eleições. (Foto: Jewel Samad/AFP)

Futuro político incerto para Gaza

O resultado das eleições deixa indefinido o futuro da política israelense em relação aos territórios palestinos. Apesar das diferenças estratégicas, Netanyahu e Eisenkot partilham a visão de continuidade da ocupação e do controle de segurança israelense, opositores à criação de um Estado palestino independente.

Na análise de Flávia Giannini, uma possível troca no comando do governo não implica necessariamente uma mudança nas políticas atuais em Gaza e na Cisjordânia. “Estamos falando de alguém que também defende a continuidade da ocupação”, afirmou sobre Eisenkot.

As eleições acontecem em um contexto de ofensivas militares na Faixa de Gaza e de expansão dos assentamentos na Cisjordânia, resultando em numerosas mortes palestinas. Em julho de 2024, a Corte Internacional de Justiça considerou ilegal a presença israelense em território palestino e ressaltou a obrigação de encerrá-la.

Giannini sublinha que a real transformação da política será medida pelo impacto sobre a população palestina, respeito ao direito internacional e as possibilidades de um fim ao ciclo de ocupação e de violência.

Enquanto a contagem de votos continua, Netanyahu segue no cargo. Após a finalização do processo eleitoral, o presidente israelense, Isaac Herzog, reunirá os partidos para indicar quem tem mais condições de formar uma maioria. Caso as negociações não avancem, poderá haver novas eleições em Israel.

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