O cultivo do trigo no Brasil enfrenta desafios distintos em diferentes regiões, tanto no Sul quanto no Cerrado, forçando os produtores a reavaliar suas decisões. O país consome entre 12 e 13 milhões de toneladas dessa commodity anualmente, enquanto a produção nacional oscila entre 7 e 8 milhões de toneladas, o que resulta em uma dependência significativa de importações, conforme revelado em relatórios da Conab.
Segundo informações publicadas pelo Notícias Agrícolas, cerca de 85% da produção nacional de trigo está concentrada na Região Sul, principalmente no Rio Grande do Sul e Paraná, com Santa Catarina em menor proporção. Gilberto Cunha, agrometeorologista da Embrapa Trigo, destaca que a principal preocupação nessa região não é a falta de água, mas o excesso. A giberela, doença provocada por fungos do gênero Fusarium, é um dos principais problemas, comprometendo a qualidade do grão.
No Cerrado, que abrange Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Bahia, os desafios se diferenciam com a presença de seca e a brusone, uma doença fúngica que pode dizimar a colheita. Apesar do potencial produtivo sob irrigação, as culturas competem com outras que oferecem maior retorno financeiro, como hortaliças e feijão, segundo Cunha.
Cunha também observa que o trigo, quando cultivado em sistemas de pivôs centrais, pode ser uma alternativa estratégica de rotação para combater doenças do solo. No entanto, a dificuldade em expandir a área plantada está relacionada à maior viabilidade econômica de outras culturas. “O potencial de rendimento é alto, mas a decisão final é do produtor,” conclui.
O cenário internacional também impacta diretamente as decisões dos produtores. “O preço do trigo é definido em bolsas internacionais, e o Brasil é importador estrutural”, explica Cunha. Élcio Bento, analista da Safras & Mercado, menciona que a produção global está em alta, com estimativas do USDA apontando para uma safra recorde de 842 milhões de toneladas, o que pressiona as cotações internas devido ao câmbio favorável para importações.
Diante deste panorama, especialistas sugerem que os produtores fiquem atentos a três aspectos:
Clima: Manejo adequado para minimizar os efeitos do excesso de chuva no Sul e da seca no Cerrado;
Rotação de culturas: Uso do trigo como uma ferramenta de controle sanitário em sistemas irrigados;
Mercado e câmbio: Monitoramento das movimentações nas bolsas internacionais e análise da paridade de importação.
Com limitações climáticas, concorrência com cultivos tecnológicos e a influência do mercado global, o trigo se mostra uma cultura estratégica, mas repleta de desafios. Como afirma Cunha, “o Brasil ainda não conseguiu alinhar seus custos de produção aos preços do mercado internacional”, o que evidencia a dificuldade de suprir o consumo interno e reforça a dependência do país por importações.
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