O projeto de lei que visa renomear a Rua Peixoto Gomide, localizada na região da Consolação em São Paulo, despertou uma controvérsia relacionada a um crime ocorrido há mais de um século. O debate gira em torno da verdadeira origem do nome da rua: seria uma homenagem ao político Francisco de Assis Peixoto Gomide, que assassinou sua filha, ou estaria referenciando um homônimo desvinculado do trágico evento?
Na última semana, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou em primeira votação a mudança para o nome "Rua Sophia Gomide". A nova designação homenagearia a jovem de 22 anos, vítima do feminicídio cometido por seu pai em 20 de janeiro de 1906, conforme informações publicadas pela Folha de S.Paulo. A iniciativa foi proposta pela Bancada Feminista do PSOL e pela vereadora Luna Zarattini (PT), tendo como base uma pesquisa da historiadora Maíra Rosin, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Rosin identificou que além da Rua Peixoto Gomide, outras vias em São Paulo também homenageiam homens envolvidos em crimes contra mulheres. Entre elas, estão as ruas Moacir Piza e Alberto Pires, ambos já alvos de propostas para alteração de nomes.
Peixoto Gomide, senador na época, atirou na cabeça de sua filha após não aceitar seu relacionamento com o jovem poeta Manuel Batista Cepelos. O crime aconteceu na residência da família, em um cenário que, segundo relatos, reflete a rigidez das normas sociais da época.
O nome da rua, oficialmente reconhecido em 1914 após uma revisão de logradouros, foi rapidamente colocado em dúvida. Recentemente, o jornalista Douglas Nascimento, do São Paulo Antiga, sugeriu que o nome poderia referir-se ao pai de Francisco, um juiz de direito que atuou antes. Segundo uma nova versão apresentada pela prefeitura, não há consenso sobre a origem do nome, afirmando que "servidores antigos" acreditavam na conexão com o senador.
A vereadora Silvia Ferraro (PSOL) contestou a possibilidade de uma homenagem ao pai, citando documentos que comprovam a ausência do prefixo "Júnior" em registros relevantes. O historiador João Barcellos também apoiou a ideia de que o nome se refere ao senador, enfatizando a prática comum na época de nomear ruas em homenagem a figuras públicas falecidas.
Após o andamento do projeto de lei, a prefeitura de Ricardo Nunes (MDB) revisou novamente o conteúdo no Dicionário de Logradouros, incluindo informações sobre a origem do feminicídio. A administração insinuou que o crime poderia ter relações ainda mais complexas, mas sem atribuir adequadamente a fonte das novas informações.
A gestão não retornou aos questionamentos sobre essas mudanças. Em resposta ao novo cenário, as vereadoras enviaram um ofício à prefeitura exigindo explicações sobre as alterações na história oficial da rua.
A discussão sobre o nome da Rua Peixoto Gomide vai além de uma simples mudança de logradouro; ela toca em questões profundas sobre a memória, as violências de gênero e como a sociedade escolhe lembrar suas figuras históricas. O projeto de lei agora aguarda novas deliberações na Câmara Municipal, e o debate promete continuar a gerar repercussões.
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