O programa espacial da China tem ganhado destaque nas últimas décadas, posicionando-se como um dos principais competidores na corrida espacial global, especialmente em relação aos Estados Unidos. Entretanto, pouco se fala sobre a contribuição significativa do Brasil para o avanço tecnológico da China nesse setor. Segundo informações publicadas pela CNN Brasil, a história dessa colaboração remonta aos anos 80, quando o Brasil começou a estreitar laços com o país asiático.
Em 1985, o então Ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil, Renato Archer, determinou a formação de parcerias internacionais para aprimorar o conhecimento em tecnologia espacial. Especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) foram enviados para a União Soviética em busca de colaboração, mas devido à relutância daquele país em compartilhar conhecimento, a equipe voltou-se para a China, que demonstrava interesse em uma troca de experiências.
Em 1987, a equipe do Inpe chegou à China, um passo crucial para a colaboração. A falta de formalização nas práticas de documentação cientifica na China chamou a atenção dos brasileiros, que perceberam que cada engenheiro utilizava cadernos pessoais para registrar informações. “Nós auxiliamos no ajuste de todo o processo de formalização e documentação”, relembra César Celeste Ghizoni, ex-diretor de Engenharia Espacial do Inpe, em uma entrevista à CNN Brasil. Essa troca de know-how foi fundamental para o desenvolvimento de tecnologias espaciais na China.
A parceria evoluiu para o desenvolvimento do programa CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite), que foi formalizado em 1988 sob a liderança de Marco Antonio Raupp. O CBERS tornou-se uma referência mundial de cooperação espacial, mostrando a durabilidade e relevância da colaboração sino-brasileira.
Durante a parceria, a China enfrentava dificuldades em adquirir componentes eletrônicos e ferramentas devido a embargo por parte de países ocidentais. O Brasil teve um papel crucial ao facilitar a aquisição desses itens. Ghizoni comenta que o Brasil organizou a compra de materiais, ajudando a consolidar a aliança.
Marco Antonio Chamon, atual presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), reconhece que o conhecimento acumulado no Brasil na época foi essencial para o sucesso do programa espacial chinês. Desde o início do programa PRODES em 1988 para monitoramento do desmatamento da Amazônica, a China se beneficiou das experiências brasileiras para o desenvolvimento de seu próprio programa.
Após mais de uma década de trabalho conjunto, o projeto inaugurou uma nova era em 1999, com o lançamento bem-sucedido de um satélite em solo chinês. A importância desta aliança persiste, mesmo com a China se tornando uma superpotência na área espacial, superando o Brasil em muitos aspectos tecnológicos.
Maurício Santoro, especialista em relações Brasil-China, observa que a capacidade de articulação dos cientistas espaciais chineses junto ao governo comunista é um aspecto que ainda carece no Brasil, onde a influência dos cientistas nas políticas públicas é mais limitada.
O Brasil continua a desempenhar um papel importante no campo espacial, mas o desafio permanece: como assegurar que seu potencial seja reconhecido e ampliado frente às novas potências emergentes na área espacial. Essa história de colaboração pode servir de modelo para futuras relações em tecnologia.
Essa reverberação histórica do programa CBERS ilustra não apenas as vantagens de colaborações internacionais em ciência, mas também os desafios e oportunidades que aguarda o Brasil em sua jornada pelo espaço.
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