
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou um recorde de candidaturas indígenas para as eleições de 2026, com 192 postulantes se declarando indígenas em diversas categorias de cargos públicos. Este aumento é destacado como uma vitória pelo movimento indígena, porém traz também um alerta, uma vez que candidatos de todos os partidos estão envolvidos, incluindo aqueles que podem ser contrários à luta pelos direitos indígenas.
Desde 2014, ano em que o TSE começou a coletar dados por cor e raça, esta é a maior quantidade de candidaturas indígenas nas eleições gerais. Dentre os candidatos, 75 almejam uma cadeira na Câmara dos Deputados—três vezes mais do que os 25 registrados em 2014. Além disso, foram registradas 100 candidaturas para Assembleias Legislativas e três para deputado distrital no Distrito Federal. Os dados foram fornecidos pela Campanha Indígena, uma iniciativa da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
A diversidade entre os candidatos é ampla, representando 64 diferentes povos. Os Macuxi, provenientes de Roraima, estão à frente com 13 nomes, seguidos pelos Guarani Kaiowá, com 12 no Mato Grosso do Sul. O levantamento da Apib indica que as candidaturas estão distribuídas por 26 unidades da federação e abrangem os seis biomas do Brasil, com a Amazônia Legal concentrando 80 das candidaturas, representando quase 42% do total. Os dados também mostram que a região Sudeste conta com 37 candidatos, o Nordeste tem 34, o Centro-Oeste possui 27 e o Sul, 14.
Notavelmente, as mulheres estão se destacando no cenário político indígena, somando 84 candidaturas, o que representa quase 44% do total. Comparado a 2014, quando apenas 29 mulheres foram candidatas entre 85 nomes, é um avanço significativo. Em 2022, o número de candidaturas femininas havia chegado a 85.
Dinamam Tuxá, advogado e coordenador executivo da Apib, comentou sobre a ampliação da presença indígena nas eleições, destacando a variedade de partidos que apresentam candidatos indígenas. Ele alerta, no entanto, que nem todos esses candidatos alinham-se às pautas que realmente representam os direitos e interesses indígenas. “Não é porque a candidatura é indígena que a pessoa está, necessariamente, de acordo com as pautas indígenas”, disse Tuxá.
Ele destacou como exemplos de candidaturas que podem não representar adequadamente os interesses dos povos indígenas a influenciadora Ysani Kalapalo, que foi integrada à comitiva oficial do presidente Jair Bolsonaro na ONU, e Silvia Waiãpi, uma policial militar e ex-oficial do Exército, que foi eleita deputada federal pelo Amapá em 2022, também alinhada ao bolsonarismo.
O cenário atual é visto como mais favorável para alguns candidatos do que nas últimas eleições, de acordo com Tuxá. Ele mencionou que, embora exista um racismo estrutural que pode dificultar o reconhecimento das capacidades dos candidatos indígenas, personalidades como Sônia Guajajara, Joenia Wapichana e Célia Xakriabá têm contribuído para desafiar esses estigmas.
Ainda segundo Tuxá, a possibilidade de sucesso das candidaturas pode ser maior nesta eleição, e ele aponta a expectativa de que até oito candidatos a deputado federal e três a cargos estaduais possam se destacar, embora reconheça que é prematuro fazer uma previsão concreta nesse sentido.
Adicionalmente, uma resolução recente do TSE determina que candidaturas indígenas devem receber 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do Fundo Partidário, embora o montante real dependa da proporção de candidatos indígenas que se lançaram ao pleito. Tuxá também mencionou mudanças no tempo de exposição de candidatos em rádio e TV, ressaltando a proposta de criação de uma Bancada dos Povos, que visa ampliar o debate e fortalecer a presença indígena no cenário político.
A articulação entre diferentes grupos, incluindo quilombolas e movimentos sociais, apoiando candidaturas indígenas é vista como uma estratégia inovadora que busca fortalecer a representatividade e o debate sobre os direitos dos povos tradicionais nas esferas governamentais. Essa movimentação se soma à expectativa de que os novos recursos e suporte institucional possam alavancar a presença indígena nas eleições de 2026.
As informações foram extraídas de um levantamento publicado por Valor Econômico.











