
Análise: A Transformação do Irã em um Regime Teocrático
Examinando a trajetória do Irã desde a Revolução de 1979, a construção da República Islâmica reflete uma centralização do poder religioso e sistemáticas restrições.
Crédito: Ariel Liborio/Especial para Estadão
Em agosto de 1953, um golpe promovido pela CIA e pelo MI6 depôs Mohammad Mossadegh, o primeiro-ministro iraniano que havia nacionalizado a indústria petrolífera do país. Após essa reviravolta, Mossadegh passou grande parte de sua vida sob prisão.

O ex-presidente iraniano foi cultivado pelo Mossad ao longo de anos, com reuniões secretas realizadas em Budapeste, disfarçadas como conferências sobre mudanças climáticas em uma universidade estatal húngara. O recrutamento foi tão prioritário que David Barnea, então chefe do serviço de inteligência israelense, viajou a Budapeste em 2024 para encontrar Ahmadinejad. Israel arcou com as despesas das suas viagens e hospedagens. Em determinado momento, a operação gradualmente se transformou num plano de sucessão para pós-república islâmica no Irã.
A Ilusão dos Agentes de Inteligência
Um tema recorrente em operações de inteligência ao longo da história é a busca por um “personagem interno” que possa ser promovido com a ajuda de um patrocinador externo, com a expectativa de que ele lidere um novo governo após a queda do regime vigente. Contudo, essas operações frequentemente falham, pois os indivíduos apoiados frequentemente carecem de legitimidade interna.
O caso de Ahmed Chalabi, um exilado iraquiano que recebeu o respaldo do governo americano antes da invasão do Iraque, exemplifica essa falha. Chalabi, apesar de suas credenciais, nunca conseguiu conquistar o apoio do povo iraquiano, levando a uma queda desastrosa de sua imagem.
Erros Que Se Repetem
Cenários semelhantes ocorreram em outras nações, como o Afeganistão, onde o governo apoiado pelos EUA desmoronou rapidamente quando confrontado com o Taleban. Na Venezuela, reconhecimentos internacionais a Juan Guaidó não resultaram em poder real no país. A história do Irã também se repete, com a Operação Ajax de 1953 estabelecendo um modelo para golpes que não necessariamente garantem estabilidade.
A adoção de líderes externos muitas vezes resulta em reações negativas, criando adversários ainda mais poderosos nos governos que surgem.
Ahmadinejad: O Reformador?
Ahmadinejad, que se via como um reformador, acreditava que seria capaz de se tornar o líder que conduziria o Irã numa nova direção, até mesmo reconhecendo Israel. Contudo, a falta de apoio interno, aliado ao veto de sua candidatura pelo Conselho dos Guardiães, o levou a buscar a ajuda estrangeira como alternativa para retornar à liderança.
Vazamentos e Suas Motivações
A divulgação desses eventos é instrutiva, levantando questões sobre as intenções por trás de tal exposição. Informações que expõem falhas nas operações de inteligência nem sempre são divulgadas sem um propósito. O New York Times publicou detalhes que indicam que Ahmadinejad se tornou um problema para o regime ao criticar a corrupção governamental. A maneira como a história foi contada pode buscar deslegitimar potenciais rivais, enquanto ao mesmo tempo reforça a hegemonia do regime.
A inquietação interna no Irã tem raízes profundas. A operação que não teve sucesso com Ahmadinejad pode fornecer o álibi perfeito para a repressão de dissidentes locais, sendo uma narrativa queോയigem do medo e da desconfiança.
A análise deste caso, portanto, é uma reflexão sobre a complexidade da geopolítica e sobre como o passado continua a influenciar o presente no Irã. A sombra da Operação Ajax permanece, revelando que as realidades locais são mais poderosas do que as intervenções externas planejadas.











