Obesidade no Brasil: Diagnósticos falhos e falta de medicamentos limitam tratamento

O tratamento da obesidade no Brasil enfrenta sérios desafios, incluindo a falta de diagnósticos adequados, profissionais capacitados e medicamentos indispensáveis. Segundo informações publicadas pelo Folha, esses fatores comprometem a eficácia do tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e dificultam a redução da prevalência da doença no país.
O Atlas Mundial da Obesidade 2025, que traz dados de 2024, revela que 1 em cada 3 brasileiros está obeso, com a expectativa de que esse número aumente nos próximos anos. Este estudo ainda aponta que 68% da população brasileira apresenta sobrepeso.
Um levantamento do Datafolha indica uma realidade alarmante: quase 60% da população está com sobrepeso ou obesidade, porém apenas 16% receberam um diagnóstico formal sobre sua condição de saúde. Essa falta de reconhecimento inicial impacta diretamente o tratamento, conforme destaca Bruno Geloneze Neto, médico e pesquisador no Centro de Pesquisas em Obesidade e Comorbidades da Unicamp.
O médico afirma que a carência de profissionais treinados para realizar diagnósticos completos e estratégias de intervenção, como uma abordagem comportamental e dietética, é um dos principais entraves no combate à obesidade. “Sem um diagnóstico adequado, a indicação da cirurgia bariátrica, por exemplo, fica prejudicada, pois não se consideram as tentativas anteriores de manejo de peso”, explica Geloneze.
Histórias de Desesperança
A realidade de muitas famílias é marcada por histórias trágicas, como a de Carlos Barbosa, que perdeu seu filho Samuel, que aos 26 anos faleceu após complicações relacionadas à obesidade. Samuel, que pesava 350 quilos, começou a ganhar peso na infância por conta do uso de corticoides. A falta de tratamento efetivo, incluindo diagnósticos e intervenções adequadas, culminou em sua morte após uma cirurgia de balão gástrico.
“A experiência com outros profissionais de saúde foi desastrosa. Meu filho desistiu do tratamento após anos de frustração. Ele tinha um futuro promissor e sonhos”, lembra Carlos Barbosa.
Desafio de Medicamentos e Intervenções
Outra problemática significantemente abordada no tratamento da obesidade é a escassez de medicamentos eficazes, como salienta Maria Edna de Melo, médica do Hospital das Clínicas da USP e membro da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica). “O tratamento pelo SUS praticamente ignora a farmacoterapia, obrigando muitos pacientes a esperar por intervenções cirúrgicas sem alternativas viáveis”, critica.
Maria ainda ressalta a necessidade de considerar abordagens integradas, onde diferentes especialidades médicas trabalham em conjunto, uma vez que a obesidade pode originar de fatores genéticos, psicológicos, entre outros.
A sibutramina, um medicamento com custos acessíveis e capacidade de promover saciedade, exemplifica a falta de respaldo no SUS, tendo sua incorporação negada devido a considerações orçamentárias e resultados de longo prazo insatisfatórios. Enquanto isso, outros medicamentos mais caros, como o Mounjaro, ficam fora do alcance da maioria da população, amplificando a crise de obesidade.
A Realidade do Acesso à Cirurgia Bariátrica
Denis Pajecki, especialista em cirurgia bariátrica e coordenador do Departamento de Cirurgia Bariátrica da Abeso, enfatiza que a maior parte dos 50 milhões de obesos no Brasil necessitará de intervenções medicamentosas. “Considerando que apenas 10% desse total está apto para cirurgia, as medicações são cruciais para os demais 90%”, afirma Pajecki.
Dados do Ministério da Saúde evidenciam que, em 2025, o SUS realizou 14.014 cirurgias bariátricas, mais que o dobro em relação a 2022. Pajecki, no entanto, aponta que o número ainda está aquém do necessário, dado que a média mundial de cirurgias é de 1% a 1,5% dos candidatos a cada ano.
Aumento no Atendimento à Obesidade
Em nota recente, o Ministério da Saúde divulgou que em 2025 foram registrados 9,7 milhões de atendimentos relacionados à obesidade, um aumento de 57% comparado a 2022. O ministério também investiu em ações preventivas e programas como o Viva Mais Brasil, direcionando recursos para promover a prática de atividades físicas.
Além disso, o ministério solicitou prioridade à Anvisa no registro de novos medicamentos, a fim de reduzir preços e facilitar o acesso de pacientes pelo SUS. A obesidade, que resulta de uma interação complexa entre fatores genéticos, alimentares e sociais, continua a desafiar o sistema de saúde brasileiro.
A especialista Maria Edna de Melo enfatiza que o tratamento eficaz deve considerar diversos fatores, e lamenta o estigma em torno da obesidade, que muitas vezes é mal interpretada pela sociedade. “É crucial ter um entendimento mais profundo sobre essa condição e apoiar as pessoas afetadas”, conclui.
Este projeto é apoiado pela Umane, uma associação civil dedicada a iniciativas que promovem a saúde.










