
Por Beatriz Drague Ramos, do Brasil de Fato
Em 2025, o estado de São Paulo registrou alarmantes 877 mortes de civis em decorrência de ações policiais, o maior índice em seis anos, segundo dados do Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), um órgão do Ministério Público que fiscaliza a atividade policial em diversos estados, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro.
Apenas 30 mortes de profissionais de segurança foram confirmadas no mesmo período, conforme reportado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Este aumento nas mortes de civis se torna ainda mais evidente comparando-se com os números dos anos anteriores: 856 casos em 2020, com uma diminuição em 2021 (626) e 2022 (477), e um crescimento de 60% entre o primeiro ano de governo de Tarcísio de Freitas e 2025, sinalizando uma tendência preocupante.
Aumento da Letalidade nas Periferias
O fenômeno da letalidade policial não se restringe apenas à capital. Em 2025, cerca de 40% das mortes ocorreram no interior paulista, com as regiões de Campinas e Piracicaba sendo as mais afetadas. De acordo com a Conectas Direitos Humanos, a escalada da violência policial é generalizada e afeta várias áreas, embora alguns locais apresentem aumentos mais expressivos, como em São José dos Campos e na Baixada Santista.
O perfil das vítimas é marcado por homens jovens e negros, que normalmente habitam periferias e favelas. Atentados como os que vitimaram Gabriel Gois, de 22 anos, e Lincoln Vinicius Polidoro, de 29, são emblemáticos. Testemunhas afirmam que a abordagem policial foi extremamente violenta, desafiando a versão oficial de troca de tiros.
A mãe de Gabriel relatou que seu filho estava desarmado e que a polícia impediu a aproximação da família após os disparos, alegando que ele era apenas um entregador sem envolvimento em atividades ilícitas.
Críticas às Políticas de Segurança
Carolina Diniz, coordenadora de Enfrentamento à Violência Institucional da Conectas, critica a atual gestão por reverter as políticas de controle de letalidade implementadas nas administrações passadas, como o uso de câmeras corporais para monitoramento contínuo de ações policiais. A interrupção dessas práticas coincide com um aumento nos índices de mortalidade policial.
Diniz destaca que o modelo atual de monitoramento é falho, pois depende de acionamento manual, ao contrário do modelo anterior que registrava automaticamente, mesmo em emergências. “A eficácia do uso de câmeras também se dá pela sua função inibitória, tanto para policiais quanto para cidadãos”, afirma.
Paradoxalmente, enquanto as mortes decorrentes de ações policiais aumentam, a taxa de homicídios dolosos apresentou uma queda de 5% entre 2024 e 2025. Isso levanta questões sobre os métodos policiais utilizados, já que a escalada da violência não é acompanhada por uma redução na criminalidade.
Realidade Nacional
Em âmbito nacional, o Ministério da Justiça e Segurança Pública relatou 6.519 mortes por intervenção policial em 2025, mantendo um patamar superior a 6 mil mortes anuais pelo quarto ano consecutivo. Em operações no Rio de Janeiro, houve registros de 121 mortes, superando os números do massacre do Carandiru em 1992. Em 2025, o estado fluminense também contabilizou 798 casos de letalidade policial.
Os números revelam uma grave realidade, onde a letalidade policial parece ser uma resposta marginal em relação a outros índices de criminalidade, refletindo uma alocação inadequada de recursos nas ações de segurança pública, como mencionado pela equipe da Conectas.
A Secretaria de Segurança Pública do Pará argumentou que suas operações são regidas por princípios de direitos humanos e transparência. O portal Bastidores da Notícia também tentou contatar governos de São Paulo, Rio de Janeiro, e outras áreas sobre o combate à violência policial, mas ainda não obteve resposta. O espaço permanece aberto a comentários.











