As ações da Alpargatas (ALPA4), que controla a marca Havaianas, enfrentaram uma nova queda significativa na B3, marcando o segundo dia consecutivo de desvalorização. O declínio é atribuído à reação adversa a uma campanha publicitária de final de ano, que teve a atriz Fernanda Torres como protagonista. No fechamento do pregão em 22 de dezembro, os papéis estavam a R$ 11,44, um recuo de 2,39%.
O episódio começou no fim de semana anterior, com o lançamento do comercial nas redes sociais e na televisão. Apesar de seu tom motivacional, a peça levantou interpretações políticas e reacendeu discussões sobre as posturas ideológicas de marcas reconhecidas. A Havaianas, que vendeu mais de 162 milhões de pares entre janeiro e setembro de 2025, viu sua reputação associada a divisões ideológicas não esperadas.
No vídeo publicitário, Fernanda Torres menciona a expressão “começar o ano com o pé direito”, incentivando uma atitude mais proativa. A atriz afirma: “Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: a sorte não depende de você. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés – os dois pés na estrada, na porta, na jaca, onde você quiser”, finalizando com o slogan “Havaianas, todo mundo usa”.
Uma parte do público conservador interpretou suas declarações como uma provocação ao espectro político de direita. Personalidades como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro gravaram vídeos jogando pares de chinelos no lixo, reclamando que a marca havia perdido sua identidade nacional ao optar por uma “atriz declaradamente de esquerda”. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) comentou de forma irônica: “Havaianas, nem todo mundo agora vai usar”.
Diversos parlamentares, como Bia Kicis (PL-DF), aderiram ao boicote, enquanto vozes da esquerda se manifestaram em defesa da campanha, criticando a mobilização. A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) chegou a questionar se os chinelos “não servem direito nos cascos deles”.
A Havaianas decidiu remover o vídeo da sua página principal no Instagram, mantendo-o apenas na aba de Reels. Até o momento, a Alpargatas não se manifestou oficialmente sobre a controvérsia.
A resposta do mercado resultou em uma perda aproximada de R$ 152 milhões em valor de mercado durante o pregão em 22 de dezembro, segundo análises de consultorias como a Elos Ayta. Especialistas ressaltam que boicotes isolados geralmente têm pouco impacto nas vendas de produtos amplamente consumidos, como os chinelos Havaianas, que detêm 77% do mercado brasileiro.
Um analista da RB Investimentos observou: “Historicamente, esses movimentos geram mais barulho nas redes do que impacto real no consumo”. A Alpargatas, que acumulou uma alta de mais de 84% nos últimos 12 meses, continua a ser uma líder global com forte presença na rotina dos brasileiros.
Além disso, a situação trouxe um aumento de visibilidade para a marca, refletido na conquista de milhares de novos seguidores em suas redes sociais. Concorrentes, como Ipanema, também notaram um crescimento similar. O caso demonstra como campanhas publicitárias podem ser reinterpretadas em um cenário polarizado, com possíveis impactos temporários no mercado de ações, mas sem comprometer os fundamentos de uma marca estabelecida. Investidores agora aguardam para ver se a repercussão se dissipará ou influenciará resultados futuros.
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