As contribuições das mulheres na formação e desenvolvimento de São Paulo foram historicamente ignoradas. Entre os séculos 16 e 19, muitas mulheres que poderiam ter se destacado na sociedade ficaram limitadas aos papéis tradicionais de lar e maternidade. No entanto, algumas delas não apenas desafiaram essas normas, mas também desempenharam papéis cruciais como agentes de mudança, conforme apontado no livro “A História Segundo Elas – Protagonismo e Permanência: as Trajetórias Femininas que Estruturaram São Paulo”, do pesquisador Lincoln Paiva, publicado pela Editora Afluente.
O autor destaca 57 mulheres que se tornaram fundamentais na construção da identidade de São Paulo ao longo de 500 anos. Dentre elas, estão figuras marcantes como Bartira, filha do cacique tupiniquim Tibiriçá, sua irmã Terebé e Susana Dias, fundadora da vila de Santana do Parnaíba. Essas mulheres foram fundamentais na articulação de alianças políticas durante a formação do território de São Paulo de Piratininga, influenciando diretamente o seu desenvolvimento.
Paiva explica que “a formação paulista não se organiza a partir de instituições formais, mas de alianças que garantem circulação e legitimidade na ocupação”. Assim, o papel das mulheres não deve ser visto como um elemento secundário, mas como um pilar essencial na estruturação da sociedade.
Nos primeiros 300 anos da história da cidade, as referências a mulheres nas atas da Câmara Municipal eram escassas, com apenas 12 nomes registrados. Com o passar do tempo, surgiram as primeiras comerciantes, como Francisca Roiz, conhecida como “Cigana”, a escravizada Josepha de Moura, e a paneleira Sinhá Thereza, que começaram a romper barreiras e se destacarem economicamente.
“As histórias de mulheres seldom eram registradas, pois não faziam parte da elite política da cidade,” observa Paiva. “Priorizaram-se os homens, enquanto as mulheres mantinham o controle econômico durante as saídas dos bandeirantes.”
Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, foi uma figura notável do século 19, conhecida por sua vida marcada por desafios e inovação. Ela não só se destacou como uma agregadora social e benfeitora, mas também foi responsável por destinar recursos a causas como a construção da capela do Cemitério da Consolação.
Outras mulheres notáveis mencionadas no livro incluem Virgilina de Souza Salles, a primeira mulher jornalista do Brasil; Maria Punga, pioneira na venda de cafezinho nas ruas; a educadora Anália Franco; a ativista Pérola Byington; e a advogada Maria Augusta Saraiva, a primeira aluna da faculdade de Direito do Largo São Francisco.
No século 20, o número de mulheres empoderadas aumentou significativamente. Começando com anarquistas como Tecla Fabbri, passando pela aviadora Thereza de Marzo, até figuras intelectuais como Bertha Lutz e Lélia Gonzalez, a lista continua com artistas como Patrícia Galvão e a escritora Carolina Maria de Jesus. Este panorama evidencia a vasta contribuição feminina para a cultura e o desenvolvimento histórico de São Paulo.
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