Um vídeo que rapidamente ganhou notoriedade nas redes sociais mostra um ciclista realizando um furto em plena via pública em São Paulo. Ao som de um funk que exalta a facção criminosa paulistana, ele aborda um pedestre distraído, subtrai seu celular e se afasta com agilidade. Esta filmagem de apenas 15 segundos foi divulgada no Instagram e termina com uma mensagem evocativa: “Na cidade, é nóis que manda em todo lugar que passa”.
Conforme reportado pela Folha, em recentes levantamentos, diversos perfis no Instagram têm compartilhado gravações de furtos e roubos cometidos por jovens. O que impressiona é o fato de que muitos dos delinquentes, aparentemente menores de idade, registram suas ações ou são filmados por cúmplices.
A maioria dos vídeos registra homens jovens que atacam pedestres com bicicletas, quebram os vidros de automóveis para furtar objetos e roubam correntes de pessoas desatentas. As imagens frequentemente fazem referência ao número “55”, um código associado ao artigo 155 do Código Penal, relacionado ao furto. Um dos vídeos ultrapassou 200 mil visualizações.
Os perfis não se limitam a mostrar os crimes, mas também expõem imagens das vítimas. Um exemplo notável é o de Rafael Garcia, especialista em logística, que foi atacado enquanto aguardava em um semáforo no cruzamento da Rua da Consolação com a Avenida Paulista, em 27 de agosto do ano passado. Garcia relatou um momento de desespero, onde tentou segurar o ladrão, mas acabou sendo agredido e se ferindo com os vidros quebrados.
Na mesma noite, sua imagem, junto à namorada em momentos de lazer, foi publicada na mesma rede social, ilustrando a violação da sua privacidade, revelando seu nome completo em um alerta bancário visível no vídeo. “Fiquei bastante apreensivo. Essa situação expõe não só meus dados pessoais, mas também fotos familiares e informações sobre meus deslocamentos”, comentou.
Os criminosos ainda compartilham fotos dos celulares roubados e do dinheiro obtido. Em uma das postagens, um jovem exibe uma bolsa repleta de 18 celulares, a maioria de modelos iPhone, enquanto outros exibem maços de notas de R$ 100. Apesar de alguns optarem por esconder os rostos, muitos não se incomodam em aparecer.
Além disso, as publicações frequentemente incluem provocativos comentários direcionados às vítimas, como um vídeo em que alegam ter conseguido os itens em “Moscou”. A ostentação vai além, com mensagens que criticam a sociedade, repudiando a hipocrisia presente nas relações sociais.
Com dados da Secretaria da Segurança Pública apontando 154.058 furtos e roubos de celulares em São Paulo no último ano, com uma média de 422 ocorrências diárias, especialistas como David Marques, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirmam que esse tipo de comportamento revela uma “cadeia produtiva de crime”, onde os jovens desempenham um papel central.
Marques observa que os celulares furtados alimentam um mercado paralelo, onde muitos são repassados e revendidos em outros países. A visibilidade dos crimes nas redes sociais contribui para uma “subcultura do crime” que apresenta grandes desafios às autoridades policiais, que ainda estão tentando acompanhar a evolução digital.
A Meta, empresa responsável pelo Instagram, declarou que não permite o uso da plataforma para promover atividades criminosas, e apoia denúncias de conteúdos que vão contra suas políticas. Por sua vez, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, liderada por Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que as forças policiais estão ativamente trabalhando para a redução desses crimes, destacando uma queda de 7% nos furtos e roubos de celulares no início deste ano em comparação com o ano anterior.
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