Crédito: ICL Notícias
No dia 11 de fevereiro de 2026, a agricultora Tatiane Loch Cequinel visitou a Escola Estadual do Palmital 43, em Roncador, Paraná. A experiência a deixou emocionada. “A gente já vê sinais de abandono. Já não está com a graminha cortada, já não tem criança”, afirmou. Tatiane estava lá para assinar os documentos que encerravam as atividades da Associação de Pais e Mestres, uma das últimas etapas na despedida de uma unidade que serviu por décadas as comunidades rurais locais.
A escola, que teve uma trajetória de aproximadamente 80 anos, foi um espaço de aprendizado para Tatiane, que desejava que seus filhos continuassem a estudar ali. A crise no setor educacional levou ao remanejamento de crianças e adolescentes para unidades mais distantes, complicando a vida das famílias rurais.
De acordo com um levantamento do Fórum Nacional de Educação do Campo (Fonec), de 2000 a 2024, o Brasil perdeu cerca de 110.758 escolas rurais, afetando comunidades que dependem desses ambientes educacionais. O dado, que se baseia em informações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostra que o fechamento dessas unidades é um fenômeno preocupante: em 2024, 3.159 escolas encerraram atividades, sendo 1.585 delas no campo.
No Pará, na Ilha de Marajó, a situação não é diferente. As escolas rurais enfrentam o mesmo destino, com quatro delas fechando nos últimos três anos. Sebastião Rodrigues Pereira, pescador da região, expressou a frustração com o fechamento da Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Bom Jardim, que atendia 54 alunos há 53 anos. Ele relatou as dificuldades que sua neta enfrenta ao ter que viajar mais longe e em condições perigosas devido à nova localização da escola.
O fechamento de escolas rurais não é apenas uma questão logística, mas representa um rompimento com a cultura e o modo de vida das comunidades. Tatiane, que teve seu filho transferido para uma escola de ensino integral, observa a dificuldade de adaptação do adolescente a essa nova realidade, que o afasta dos hábitos e relações familiares.
Conforme apontado no Censo Escolar 2024, 98,9% das escolas de educação básica em áreas rurais são públicas, totalizando 178,5 mil instituições em todo o Brasil. A disparidade entre as escolas no campo e na cidade é marcante: enquanto as unidades rurais enfrentam fechamento, novas escolas privadas continuam a surgir nas áreas urbanas.
A relevância da educação rural vai além da simples formação acadêmica, sendo uma estratégia essencial para a preservação da soberania alimentar e da cultura local. A agricultora Iliane Meier, do Paraná, enfatiza que a desagregação da oferta educacional no campo mina a motivação dos jovens para permanecer na agricultura familiar.
Uma análise mais aprofundada revela que a expansão do agronegócio é um dos principais fatores para o fechamento das escolas rurais. A pesquisadora Jullyane Frazão, da Universidade de São Paulo (USP), constatou que regiões do Piauí com maior atividade agrícola correlacionam-se com o fechamento de unidades de ensino. Esse fenômeno se intensificou com projetos agrícolas que resultaram na desapropriação de terras e na extinção de comunidades.
O fechamento das escolas acarreta consequências severas. Muitas vezes, os prédios são redecorados para servir a outros fins, como unidades de saúde, limitando o acesso da população a variados direitos, incluindo a educação.
O Fonec ressalta que a extinção das escolas rurais não é um acontecimento isolado. Trata-se, segundo o órgão, de uma estratégia política que ignora os princípios de gestão democrática e não considera a voz das comunidades nas decisões sobre seus espaços escolares.
Embora o Ministério da Educação (MEC) tenha anunciado iniciativas para combater o fechamento das escolas do campo, a implementação das políticas frequentemente desafia as normativas que exigem consultas públicas antes de qualquer fechamento.
O fechamento das instituições educacionais muitas vezes é decidido sem a consulta às comunidades afetadas. Um exemplo é a Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Nair Gaia Ataíde, em Vigia, Pará, onde os pais foram informados sobre o fechamento em um prazo extremamente curto. Apesar da oposição da comunidade, a decisão não foi revertida.
No Paraná, embora as famílias tenham recebido um aviso com antecedência, suas reivindicações foram ignoradas, levando a um sentimento de descontentamento entre os moradores.
As comunidades tentam lutar contra essas decisões administrativas, mas a mobilização nem sempre é suficiente para preservar o que historicamente foi um espaço educacional central para suas vidas. A escola da Linha Conceição, por exemplo, fechou mesmo após uma reunião onde a maioria se manifestou contra a decisão.
A reportagem tentou contato com o governo do Paraná e a Prefeitura de Vigia, mas não obteve retorno. Uma atualização será fornecida caso novas informações sejam recebidas.
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