A Câmara dos Deputados decidiu, nesta quarta-feira, 10 de outubro, manter o mandato da deputada Carla Zambelli (PL-SP), após uma votação que gerou ampla repercussão. Foram registrados 227 votos a favor da perda de mandato e 110 contra, além de 10 abstenções. Para que a cassação fosse aprovada, seriam necessários 257 votos, númeroso que, por não ter sido atingido, resultou no arquivamento da representação apresentada pela Mesa Diretora.
Carla Zambelli foi condenada em definitivo pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a dez anos de reclusão por sua participação em uma série de invasões nos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Atualmente, a deputada se encontra presa na Itália, após ter fugido do Brasil, e a extradição está em andamento, aguardando decisão das autoridades italianas.
O parecer da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), apresentado pelo deputado Claudio Cajado (PP-BA), sugeria a perda do mandato de Zambelli, justificando que o cumprimento de pena em regime fechado é incompatível com o exercício das funções parlamentares. Cajado enfatizou durante a sessão: “Como alguém pode exercer o mandato estando recluso em regime fechado? O mandato exige presença, comparecer ao plenário e participar das comissões.”
Vale destacar que a jurisprudência do STF, com base em um caso análogo envolvendo o ex-deputado Nelson Meurer, foi citada para embasar a argumentação pela cassação. A Mesa Diretora, responsável pela entrega da representação, fundamentou sua posição em um comunicado do STF, que definiu que a perda do mandato deve ser declarada pela própria Mesa.
A condenação de Zambelli também inclui uma multa e indenização de R$ 2 milhões por seu papel como “instigadora” nas invasões realizadas por Walter Delgatti Neto e Thiago Eliezer, ambos presos durante a Operação Spoofing. De acordo com a promotoria, em janeiro de 2023, ocorreram 13 invasões nos sistemas do CNJ, resultando na inserção de 16 documentos falsos, incluindo mandados de prisão e ordens judiciais fraudulentas.
O projeto de manutenção de mandato, inicialmente relatado pelo deputado Diego Garcia (Republicanos-PR), foi amplamente debatido na CCJ. Garcia argumentava na sua defesa que não havia evidências diretas que implicassem Zambelli nos crimes. A votação do parecer dele foi, entretanto, derrotada, e sua análise foi desconsiderada.
Durante os debates, o advogado de Zambelli, Fábio Pagnozzi, questionou a solidez das provas apresentadas. Segundo ele, a condenação se baseou no testemunho de Delgatti, que teria mudado seu depoimento por várias vezes. “A Carla Zambelli só quer dignidade”, afirmou o advogado, enfatizando o desejo da deputada de não ser cassada para manter sua posição enquanto aguarda o devido processo legal.
A decisão da Câmara foi recebida com críticas por parte de alguns deputados. A vice-líder do governo, Jandira Feghali (PCdoB-RJ), considerou que a cassação deveria ser realizada automaticamente, dado o estado de prisão da deputada. "Se não fosse uma deputada já condenada, haveria sentido esse debate", disse.
Por outro lado, o líder do PL, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), advertiu que a Mesa Diretora poderia decidir sobre a perda de mandato com base nas ausências de Zambelli, que já ultrapassou o limite constitucional de faltas.
A votação em torno da deputada Carla Zambelli lança um reflexo sobre os limites da atuação parlamentar diante de condenações judiciais. A trama jurídica e política em torno de sua situação continua, com implicações que podem surgir nas próximas semanas, especialmente à medida que o processo de extradição avança e outros desdobramentos judiciais podem ocorrer.
A Câmara dos Deputados, ao decidir não cassar o mandato de Zambelli, delimitou um espaço para que o debate acerca da presença de parlamentares em situação semelhante ocorra, mas, ao mesmo tempo, deixou em aberto a discussão sobre a efetividade e os reais desafios do legislativo diante de figuras públicas envolvidas em escândalos.
(Imagem: CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chamber_of_Deputies_of_Brazil.jpg)
*Com informações do Rondônia Agora.
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