Quando especialistas em defesa se reuniram recentemente na sede do governo britânico, a impressão deixada sobre a prontidão do Reino Unido e seus aliados para um possível conflito foi alarmante: a avaliação é de que não estão preparados para uma guerra iminente. O encontro, promovido pelo Rusi (Royal United Services Institute), contou com participantes que, embora não sejam belicistas, possuem sólido conhecimento sobre os desafios que a Europa pode enfrentar.
Entre os presentes estavam membros atuais e ex-integrantes das forças armadas, autoridades do governo e da Otan, além de pesquisadores e profissionais da área de defesa. Todos compartilhavam a visão de que a Rússia está se mobilizando para um potencial conflito direto com a Europa. A solução, conforme apontaram os especialistas, reside em assegurar que, caso a guerra se instale, a Europa saia vitoriosa.
Para isso, um aumento nos investimentos em defesa é crucial. No entanto, muitos especialistas também ressaltam a necessidade urgente de uma mudança na mentalidade dos governos europeus. “Acho que há indícios de que as sociedades estão dispostas a ter essa conversa, mas também vejo governos que ainda não se sentem suficientemente confiantes para dialogar com seus cidadãos”, afirmou Sam Greene, especialista em política russa do King’s College London.
O entendimento crescente entre os especialistas é que a Rússia já está promovendo uma guerra híbrida contra o Ocidente, utilizando táticas como sabotagem e desinformação para desestabilizar os debates internos. Exemplos citados incluem incursões de aviões e drones russos no espaço aéreo da Otan e campanhas de desinformação, cujos rastros levam a serviços secretos russos, embora o país negue qualquer envolvimento.
As consequências dessa guerra híbrida já alteraram a percepção de muitos na Europa, embora alguns políticos ainda hesitem em nomear abertamente essas ações como um estado de guerra. Greene destacou que “as pessoas estão assustadas” com a crescente visibilidade desses fenômenos. Ele evidenciou a preocupação com drones avistados em áreas estratégicas, alertando para o risco iminente que isso representa.
Apesar da ausência de ataques diretos da Rússia contra aliados da Otan na Europa, os sinais de que isso pode mudar são cada vez mais evidentes. Analistas apontam que a Rússia está ciente de suas limitações diante da aliança e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, mencionou que a força militar russa pode ser utilizada contra a organização num período de cinco anos.
Na mesma linha, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, declarou que os serviços de inteligência do país acreditam que Moscou mantém a opção de guerra contra a Otan até 2029. Por sua vez, o presidente russo, Vladimir Putin, ao abordar o tema, disse: “Se a Europa de repente quiser entrar em guerra conosco e começar, estamos prontos agora mesmo”.
A preocupação é especialmente intensa entre os países bálticos, que acreditam que um ataque russo pode ocorrer em um horizonte de apenas três anos. A análise do Centro Belfer, da Escola Kennedy de Harvard, revelou que previsões sobre a Rússia atacando a Otan frequentemente indicam os anos de 2027 e 2028. Isso levou os países bálticos a desenvolver planos de contingência, embora especialistas alertem que as estratégias da aliança permanecem insuficientes.
Jack Watling, pesquisador do Rusi, destacou que “os governos não estão tomando as medidas necessárias para implementar” essas estratégias, apontando para uma desconexão entre o planejamento e a realidade atual.
Em busca de soluções, o governo britânico nomeou especialistas renomados, como George Robertson e Richard Barrons, para conduzir uma revisão estratégica da defesa nacional. O resultado foi um manual que delineia os passos necessários para a preparação para um conflito.
Barrons enfatizou a urgência de repensar a resiliência da infraestrutura britânica e fortalecer as forças armadas e a defesa civil. “Não precisamos de mais análises. O problema é que precisamos, de fato, fazer”, ressaltou, lamentando que a sociedade civil e os políticos estejam focados em outras prioridades.
Segundo Barrons, a trajetória atual sugere que o Reino Unido pode levar cerca de dez anos para estar plenamente pronto para a guerra, enquanto os aliados estimam que essa preparação deve ocorrer em três a cinco anos.
A Europa viveu um dos períodos mais longos de paz desde 1945, permitindo que seus governos concentrassem investimentos em bem-estar social. No entanto, eventos recentes, como a mudança na postura de defesa dos Estados Unidos sob Donald Trump e a invasão russa da Ucrânia, provocaram um reexame das prioridades de defesa.
Dados da Otan indicam que 31 de seus 32 membros deverão cumprir a meta de 2% do PIB para gastos com defesa este ano, um aumento considerável em relação a apenas seis países em 2021. Contudo, a Islândia, membro fundadora da Otan, não tem forças armadas, mas contribui financeiramente com sistemas de defesa.
Apesar das intenções de elevar o percentual de gastos para 5% do PIB até 2035, analistas expressam ceticismo quanto à viabilidade deste compromisso, especialmente considerando as dificuldades econômicas enfrentadas por muitos países europeus.
A disposição da população para compreender a ameaça russa e participar da defesa varia amplamente entre as nações europeias. No leste europeu, especialmente nos países bálticos e na Polônia, a percepção do risco é palpável. Cidadãos desses países adotam precauções, como a construção de abrigos.
A Suécia e a Finlândia, por exemplo, reforçaram orientações de sobrevivência, enquanto n ações como a reintrodução do serviço militar obrigatório em alguns países e programas de treinamento militar voluntário em outros refletem uma mudança nas prioridades de defesa.
Robin Potter, do think tank Chatham House, observou que a confiança nas instituições governamentais influencia a disposição das populações em fazer sacrifícios para o bem comum. Ele indicou que em países nórdicos, onde a qualidade de vida e o bem-estar são altos, o conceito de defesa total está enraizado, em contraste com nações com menores níveis de confiança pública.
Esse cenário exibe uma complexidade crescente para os governos europeus na gestão da defesa, à medida que as preocupações geopolíticas se tornam mais prementes.
Com informações da CNN Brasil.
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