Ailton Alves de Sousa, 41 anos, tem vivenciado uma série de abordagens policiais em São Paulo, que o deixaram em estado de medo constante. Morador do Heliópolis, ele foi abordado pela polícia em diversas situações cotidianas, incluindo dentro de sua casa, em um cinema e até em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) onde acompanhava sua mãe.
Conforme reportado pelo iG, Ailton foi reconhecido erroneamente pelo programa Smart Sampa, da Secretaria Municipal de Segurança Urbana, que utiliza tecnologia de reconhecimento facial.
As confusões começaram após ele ser erroneamente identificado como procurado por um homicídio no Mato Grosso, dois indivíduos com nomes semelhantes contribuíram para esse erro. Apesar de a semelhança, Ailton enfatiza que informações adicionais, como dados pessoais e documentos, poderiam ter evitado essas abordagens.
Secretária Municipal de Segurança Urbana, Juliana Lopes Bussacos
A última abordagem ocorreu em março, enquanto Ailton estava com sua mãe na UPA. Após ser detido e liberado, horas depois policiais estiveram em sua residência durante a madrugada, o que o deixou aterrorizado. O coordenador de pessoal relata a tensão do momento: “Eles vieram às 3 horas da manhã, gritando meu nome e tentando entrar na minha casa”, e posteriormente acionou seu advogado.
Após registrar queixa na delegacia, o delegado indicou que os policiais provavelmente “queriam forjar uma cana ou fazer algo mais sério”. Ailton também menciona outras interferências, onde policiais entraram em sua casa sem mandado, alegando investigações de agressão física.
O Smart Sampa foi desenvolvido pela Prefeitura de São Paulo com o objetivo de aumentar a segurança urbana, no entanto, um levantamento publicado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) revela que o sistema resultou em mais de 90 erros de reconhecimento nos últimos três anos, sem comprovação de eficácia na redução de criminalidade.
A Prefeitura, através do prefeito Ricardo Nunes, havia prometido que apenas pessoas com mais de 90% de similaridade biométrica seriam abordadas, mas candidatos à segurança têm relatado experiências opostas, ressaltando a falta de precisão no reconhecimento.
Pesquisadores alertam que o reconhecimento facial, utilizado em tempo real, pode resultar em discriminação racial. Yasmin Rodrigues, do CESeC, destacam que esse tipo de vigilância transforma cidadãos em suspeitos, ampliando as tensões entre a população e as autoridades policiais. O uso indiscriminado da tecnologia leva à normalização do monitoramento constante, o que pode violar direitos humanos fundamentais.
O iG tentou contato com a Secretaria Municipal de Segurança Urbana e a secretária Juliana Lopes Bussacos para discutir a saúde mental dos agentes da Guarda Civil Metropolitana e outros aspectos do caso, mas não obteve resposta até a publicação.
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