China enfrenta desafios áridos e transforma desertos em terras férteis com inovação sustentável

Em 1958, um importante desafio foi enfrentado na expansão da malha ferroviária da China: construir trilhos que atravessassem as dunas do deserto, evitando que a areia os danificasse ou enterrasse. A previsão inicial indicava que, em até 30 anos, a linha ficaria completamente submersa.
Durante o processo de construção, as obras enfrentaram interrupções em 11 ocasiões diferentes devido a tempestades de areia. Contudo, uma solução inovadora não apenas garantiu a operação contínua da ferrovia, mas também trouxe benefícios significativos para a agricultura em regiões desérticas. Ao redor dos trilhos, o deserto começou a ceder espaço ao verde.
Identificando o verdadeiro desafio
Conforme informações da China Global Television Network, o diretor do Centro de Pesquisa do Deserto de Shapotou, Zhang Zhishan, enfatizou: “Para garantir o sucesso da ferrovia, o deserto precisaria ser domado”.
A primeira etapa para superar o desafio foi entender que o problema não era apenas a areia, mas sim o vento, que transportava a areia até os trilhos. A solução estava em impedir as correntes de vento que sopravam acima das dunas.
Intervenção científica
O Instituto de Pesquisa do Deserto de Shapotou, vinculado à Academia Chinesa de Ciências, foi encarregado de desenvolver uma solução. O centro estudou métodos de controle da desertificação, e uma técnica já adotada por pequenos agricultores na área de Zhongwei se destacou.
Para proteger suas plantações da areia, mulheres da zona rural dispunham “tapetes” de palha em formação quadriculada nas margens de suas propriedades. Logo após, os homens cobriam parcialmente esses tapetes com areia, mantendo parte visível.
Essa abordagem diminui o movimento das camadas superiores de areia. Com o tempo, a umidade do solo cria uma crosta que minimiza a ação do vento, e essa proteção pode durar até 30 anos em condições climáticas normais.
Além da palha, outras vegetações como grama e arroz também podem ser utilizadas nas cercas, que, quando irrigadas, podem florescer e transformar a paisagem desértica.
Eficácia dos tapetes de palha
Neste contexto, um estudo publicado no Journal of Arid Environments em 2004 analisou a eficiência dos tapetes de palha em bloquear o vento. Os resultados mostraram que colunas de palha organizadas em quadrados de um metro, com alturas variando entre 10 e 20 centímetros, poderiam reduzir a intensidade do vento em até 99,5%.
As áreas ao redor dos tapetes apresentaram umidade do solo até 10,91% maior que as demais, favorecendo a formação de solo propício para a inserção de microrganismos e sementes trazidas pelo vento. Com o tempo, a palha se decompõe, enriquecendo o solo, mas exige renovação para manter o controle da desertificação.
De acordo com o estudo, “a técnica demonstra vantagens significativas, como um excelente efeito de retenção de dunas, fácil construção, resultados rápidos e baixa poluição ambiental”, embora o custo de mão de obra e a necessidade de substituição das cercas a cada três a cinco anos sejam desafios a serem superados.
Desafios na implementação
Embora a técnica de posicionar e enterrar a palha seja simples, a extensão necessária para que funcione adequadamente e as duras condições climáticas tornam o trabalho exigente e arriscado.
Os agricultores das aldeias vizinhas ao deserto de Shapotou são convocados para realizar as atividades, utilizando chapéus e máscaras para se proteger do sol e das tempestades de areia. Para descanso, improvisam tendas com lençóis e estacas de madeira.
Segundo Fang Wensheng, secretário do Partido Comunista da China na vila de Heilin, os trabalhadores recebem entre 60 e 70 mil yuans anualmente, o que equivale a aproximadamente R$ 52,9 mil. Até 2018, mais de 24 mil hectares de deserto já estavam cobertos por tapetes de palha.
Recentemente, o uso de máquinas para posicionar e enterrar as faixas de palha ou grama começou a ser implementado, aliviando a carga do trabalho manual.
Limitações do método
Apesar de ser uma abordagem reconhecida como eficiente e ecológica para combater a desertificação, o uso de tapetes de palha enfrenta limitações que restringem sua aplicação em todo o mundo.
Desde 1977, quando a China apresentou a técnica em uma conferência da ONU sobre desertificação em Nairóbi, outros países começaram a experimentá-la. No entanto, em regiões com precipitações elevadas, a palha apodrece rapidamente, limitando sua eficácia. Além disso, em locais sujeitos a ventos fortes, essas estruturas orgânicas podem ser rapidamente destruídas.
Alternativas, como tabuleiros de pedra e cercas plásticas, têm sido exploradas em contextos similares.











